segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Uma fofura só

Todo mundo sabe que eu não sou do tipo que adora criancinhas. Mas alguns filmes com crianças como protagonistas me tocaram o coração. Primeiro foi A culpa é do Fidel de Julie Gavras (2006), que tem a pequena Nina Kervel-Bey no papel principal. Mais recentemente tive contato com outro filme pelo qual fiquei logo apaixonado: O pequeno Nicolau (Laurent Tirard, 2009).

O filme mostra o pequeno Nicolau (Maxime Godart) tentando lutar contra a chegada de um irmãozinho mais novo, devido ao medo de ser preterido pela família. Com toda sutileza que o tema exige, o filme explora o universo infantil com grande propriedade e nos faz rir de uma forma honesta e despretensiosa: longe de qualquer pastelão e de piadas clichê.

O pequeno Nicolau explora um recurso cômico já bastante utilizado tanto na literatura quanto no cinema: o quiproquó. Mesmo assim, ele não perde em nada por isso.

Segundo a definição do dicionário, o quiproquó é um “erro que consiste em tomar uma coisa por outra”. E é exatamente esta a deixa para praticamente todas as cenas cômicas do filme: o desentendimento nos diálogos, gerando confusão entre os personagens.

No todo, o filme é muito bom, com fortes atuações, principalmente por parte das crianças. É uma boa pedida para reunir toda a família em torno de um pote de pipoca num domingo à tarde.

domingo, 13 de novembro de 2011

O lado ruim da expectativa

Desde que foi lançado, eu li diversas resenhas críticas a Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010), mas só agora consegui parar pra assistir ao filme. De fato, ele é muito bom, mas ficou aquém do palavrório.

O filme trata da perturbação psicológica da protagonista, a bailarina Nina (Natalie Prtoman), que está prestes a se tornar a solista principal do próximo espetáculo de sua companhia – O Lago dos Cisnes. Paralelamente a isso, Nina tem relações conturbadas com sua mãe, com outras bailarinas de sua companhia e com o próprio diretor, Thomas (Vincent Cassel).

Os distúrbios de Nina são tão intensos que chegam a confundir o espectador. Aquilo que se vê de fato aconteceu dentro da narrativa ou foi apenas mais um delírio da personagem? Demoramos alguns segundos para identificar.

Cisne Negro é certamente um filme que tem mérito. Mas eu teria gostado bem mais se tivesse ouvido falar bem menos dele entes de ter assistido.

Os comentários que ouvi/li foram os mais diversos, mas quase todos giravam em torno de um mesmo eixo. “O filme é extremamente perturbador”, era a opinião majoritária. De tanto isso se repetir, imaginei que iria me deparar com um novo Réquiem por um sonho - filme do mesmo diretor, lançado de 2000. Este sim é extremamente perturbador e agressivo – tanto que, apesar de ter entendido a proposta, não me agradou muito o resultado final. E por achar que Cisne Negro adotaria uma postura tão contundente quanto Réquiem por um sonho, adiei ao máximo meu encontro com Natalie Portman e seu balé.

Ao final do filme, eu já não sabia se ele de fato não era perturbador ou se eu criei uma expectativa demasiadamente grande com base no que eu ouvi/li sobre o filme. De qualquer forma, cada dia concordo mais com a frase do Daniel Galera: “São as expectativas que fodem tudo”. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma trilogia de quatro livros

Quando se pensa em uma trilogia, por analogia, tem-se a ideia de três obras que compõem um conjunto maior. Esta é a definição mais convencional de todas. Mas nada em Fernando Gabeira é muito convencional.

Todo mundo sabe que não é de hoje que eu sou fascinado pela produção intelectual do Gabeira. Discordo dos críticos, que encerram a Trilogia de Depoimentos do nosso mineiro (sim, Gabeira nasceu em Juiz de Fora) em “Entradas e Bandeiras”. Só porque, diferente dos anteriores, “Hóspede da Utopia” é uma obra de ficção ele deixa de entrar na série? Não, eu não consigo concordar com isso. Mas vamos por partes.

Quando Gabeira volta do exílio, ele decide contar suas impressões sobre os três momentos que passou durante o período da Ditadura Militar. É aí que surge “O que é isso, companheiro?”, livro que inspirou o filme de Bruno Barreto. Nele, o autor conta seu primeiro desafio: como enfrentar o regime militar.


Um golpe militar é um pouco como uma grande e emocionante peça de teatro. Quando termina, você sente um grande impulso para estar junto das pessoas de quem gosta, ou mesmo telefonar para saber se estão bem.

O autor descreve – de forma bastante crítica, por sinal – o funcionamento e a organização dos grupos de esquerda que viviam na clandestinidade, o comportamento dos jovens marxistas, até chegar ao famoso sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick. Daí até a cadeia. Da cadeia até o exílio – tema do segundo livro da série.

“O crepúsculo do macho” trata do período em que Gabeira foi parar no exílio. Como ficar quase 10 anos longe de seu país, sem informações sobre seus amigos e familiares? Como se integrar forçadamente à uma nova cultura, sem saber por quanto tempo terá que fazer parte daquela sociedade?

Ninguém será enganado: isto é uma viagem. Lembra-se dos filmes de bangue-bangue nos cinemas empoeirados do subúrbio? Lembra-se do momento em que a diligência ia ser atacada pelos índios? Era sempre num desfiladeiro. Cada vez que os cavalos pisavam a entrada do desfiladeiro, nossa angustia era precipitada pelos efeitos sonoros, anunciando que, a qualquer instante, a lona do carro seria crivada de flexas. Pois bem: é essa a angústia que sinto, quando entro na plataforma da estação central de Estocolmo.

Esta sequência de imagens é nada menos do que o primeiro parágrafo do livro. Pelo golpe inicial já dá para ter uma noção do tom angustiante que tomará conta de toda a narrativa. Mas, paralelamente a toda esta angústia, há contos e casos curiosos. Como na entrevista concedida por Gabeira.

O autor trabalhava como condutor de trem em Estocolmo. No réveillon, um grupo de jornalistas quis fazer uma matéria sobre pessoas que trabalham durante a madrugada e, consequentemente, passariam a virada do ano no trabalho – como condutores de trem e jornalistas, conforme exemplifica o autor, ironizando de suas duas ocupações. Chegando lá, os repórteres deram de cara não só com um trabalhador-da-madrugada, mas com um intelectual exilado político de um país de terceiro mundo que se tornara, por necessidade, um trabalhador-da-madrugada. E a entrevista se prolonga bem mais do que o previsto.

O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa e Gabeira ganha o direito de voltar ao Brasil, em 1979. Como voltar ao seu país após ficar quase 10 anos longe dele, sem informações sobre seus amigos e familiares? Quais as impressões sobre o novo país? Seria o mesmo que ele havia deixado para trás? São estas e outras perguntas que ele tenta responder em “Entradas e Bandeiras”.

“Entradas e Bandeiras”, na minha mais humilde opinião, é o melhor livro da série. Gabeira faz uma análise extremamente madura e bastante peculiar da sociedade brasileira no início dos anos 1980. Observa a ascensão do movimento ecológico, do movimento gay, as patrulhas ideológicas, os desmandos da esquerda. Se eu tivesse que escolher um único parágrafo para exemplificar toda a obra, seria o seguinte:

Culturas independentes como a dos negros exigiam um direito de existência. Os homossexuais, mantidos sob o signo do preconceito, começavam a se organizar em quase toda a parte. Os loucos, os velhos, as crianças, em breve iam abrir os olhos para o processo de opressão a que estavam submetidos. A sorte da nossa época dependia do proletariado. Seria ele capaz de captar essas novas tendências, ou embarcaria pura e simplesmente nas águas da repressão silenciosa e disfarçada contra milhões de seres humanos?

E com este livro, Gabeira encerra, para muitos críticos, sua trilogia de depoimentos. Mas discordo frontalmente desta marcação. Acredito que o quarto livro do autor se insere no mesmo campo dos demais. Apesar de ser uma obra de ficção.

É o “Hóspede da Utopia” que encerra os relatos de Gabeira sobre a ditadura. Nele, um casal errante busca da felicidade em sua forma mais plena. Uma história de amor, que tenta responder à pergunta formulada por Gabeira, assim que ele volta do exílio:

“Os políticos podem dar o balanço do número de mortos, do número de cassados, refugiados, banidos. Mas quem dará o balanço do medo dos projetos humanos que se frustraram, dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo? Quem dará o balanço do medo que nós tivemos?”

Desta forma, venho por meio deste post tentar corrigir um erro histórico – a idéia de que a Trilogia Série de Depoimentos do Gabeira tem apenas três livros. Há um quarto que, por trás de personagens fictícios, aparece um Fernando, que vai se revelando pouco a pouco nas entrelinhas de uma primorosa narrativa.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um livro de ouro

Todo mundo sabe que eu admiro – e muito – o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Em 2006 participei de sua campanha à Presidência, mas só mais tarde tomei conhecimento de sua obra literária. E me fascinei logo de cara. Tanto que um dos capítulos do meu livro é exclusivamente sobre “Os Deuses Subterrâneos”. Agora venho falar sobre outro livro do Cristovam – este, de não-ficção – que também merece destaque: “A cortina de ouro”.



Cristovam nos presenteia com um livro simples e direto sobre os “sustos” do final do século XX e os desafios para o homem dos anos 2000. Publicado em 1995, a obra é basicamente a transcrição de uma conferência realizada pelo autor com o título de “Os sustos do final do século”.

Em suma, o raciocínio que se desenvolve é o seguinte: a partir das projeções feitas por artistas e intelectuais do século XIX de como seria o século XXI, Cristovam faz análises sobre o que de fato foi realizado e em que aspectos a sociedade ficou aquém da utopia criada por tais pensadores. A conclusão a que se chega é que, do ponto de vista técnico, a sociedade avançou enormemente – muito mais do que imaginado. Em contrapartida, a realidade social que se apresenta é ais devastadora do que as mais pessimistas projeções. Ou, nas palavras do autor, “o avanço técnico não serviu para construir uma sociedade utópica”.

Um belo exemplo usado pelo autor é o avanço da medicina. Há alguns séculos, não havia cura para grande parte das doenças. Tanto os ricos quanto os pobres pereciam dos mesmos males. Hoje, já há vacinas e tratamentos dos mais sofisticados. Mas seu uso, em muitos dos casos, é restrito apenas aos ricos – enquanto pobres ainda morrem sem tratamento.

Ainda no que diz respeito aos avanços técnicos no campo da medicina, Cristovam cita o transplante como outro bom exemplo para esta desigualdade entre avanço técnico e desenvolvimento social:

Ninguém acreditava, há cem anos, que antes do final do século XX o transplante seria uma prática comum na medicina. Muito menos que a desigualdade estaria tão acirrada, que crianças seriam traficadas, mortas, para que seus órgãos fossem transferidos a outras crianças.

O livro é de uma abordagem impressionante para um tema ao mesmo tempo tão delicado e relevante para todos aqueles que querem lançar um olhar mais crítico sobre o século XXI e seus desafios. A leitura é imprescindível. E não adianta alegar que está sem tempo para ler: são 120 páginas, divididas em capítulos curtos, dá para ler rapidinho.

Por fim, gostaria de incluir neste post mais uma passagem do livro:

Para assombro de muitos observadores do mundo das ideias e das ideias do mundo de hoje, Aristóteles ou Platão parecem explicar melhor com seus pensamentos simples a simplicidade da sociedade grega de sua época do que os sofisticados acadêmicos e cientistas sociais de hoje são capazes de explicar as sofisticadas economias e sociedades contemporâneas deste final do século. E todos os homens se assustam com esta constatação.

sábado, 5 de novembro de 2011

Frases fortes, narrativa entediante

A minha mais recente leitura foi um livro que estava na minha lista (sim, eu tenho uma lista de "próximas leituras") há alguns anos (pasme), mas só agora tive saco tempo de pegar para ler. E até que gostei. Em partes. Trata-se do Este lado do paraíso, do F. Scott Fitzgerald (lê-se “Fitzgérald”).

O livro, publicado em 1920, quando o autor tinha 24 anos, conta a história de Amory Blaine, “o egocêntrico romântico”, desde quando ele era uma criança mimada até a fase adulta, cheia de responsabilidades e cobranças. O personagem, como o próprio Fitzgerald admite, deixa transparecer muito sobre o autor. “Não gostaria de falar de mim, pois admito que já o fiz bastante neste livro”, diz no prefácio “Uma justificativa do autor”.


No todo, pode-se dizer que o romance é legal. Entre drinks e festas de universidade, os personagens nos presenteiam com frases fortes e pensamentos bastante marcantes. Aliás, este é um dos pontos altos do livro, que fazem compensar a narrativa lenta adotada pelo autor. Mas entre um tédio e outro, somos surpreendidos com algo do tipo:

“Se alguém não puder ser um grande artista ou um grande soldado, o melhor que lhe resta é ser um grande criminoso.”

Ou ainda:

“Não é que eu me incomode com esse brilhante sistema de castas”, confessou Amory. “Gsto de saber que os primeiros lugares cabem aos sujeitos alinhados, mas puxa vida, Kerry, tenho de ser um deles!”

Amory é um personagem que alterna entre a frivolidade e um profundo conhecimento artístico/literário. Em diversas passagens ele discute o valor de uma obra de arte com algum de seus amigos. Em outras, ele revela um desejo de pertencer às classes mais elevadas da hierarquia social de Princeton. No todo, acaba sendo um personagem bastante interessante.

As últimas passagens do livro fazem valer toda a leitura. São nas últimas páginas em que aparece a definição de Amory bastante peculiar para “classe média”:

“Estes homens de mentalidade mofada, que apenas alisaram os bancos escolares, que pensam que pensam cada questão que surge... bem, gente assim encontra-se em cada esquina. Num momento eles se manifestam sobre ‘a brutalidade e desumanidade desses prussianos’ e, logo em seguida, declaram que ‘deveríamos exterminar todo o povo alemão’. Estão sempre acreditando que ‘a situação, agra, não está nada bem’, mas eles ‘não têm qualquer fé nesses idealistas’. Num minuto afirmam que Wilson ‘não passa de um sonhador, não é nada prático’, e daí a um ano aderem a ele por ter tornado seus sonhos realidades. Não possuem ideias claras e lógicas sobre um único assunto, exceto uma posição retrógrada e insensível a qualquer mudança. Julgam que as pessoas sem instrução não deveriam ser bem pagas, mas não percebem que se não pagarem bons salários a essa gente seus filhos também não terão uma boa educação, o que nos leva a um círculo vicioso Essa é a famosa classe média.”

No todo, é uma leitura que oscila entre diálogos muito interessantes e trechos bastante arrastadas. Vale a leitura, pois é um retrato não só de um personagem, mas de toda uma geração.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ainda sobre a USP

Todo mundo sabe que gosto muito de acompanhar o movimento estudantil, mesmo não sendo mais estudante há algum tempo. Particularmente, esse caso da USP me deixou bastante intrigado. (Se você não sabe do que se trata, clique aqui). De tudo o que eu vi/li/ouvi, não consegui concordar com absolutamente nada do que está acontecendo na universidade. De qualquer forma, gostaria de fazer algumas perguntas para eu pelo menos tentar entender melhor a questão - ou até mesmo mudar minha opinião. Lá vão:

- Porque o DCE é contra a presença da polícia no campus? Foi verificado algum tipo de abuso por parte dos policiais contra estudantes, servidores ou professores? Se sim, foi feita alguma denúncia formal à corregedoria da PM, ou à Reitoria, ou algum outro órgão?

- O que o DCE achou errada a prisão de três estudantes por porte de maconha no campus? Se sim, qual deveria ter sido a medida adotada pelos policiais?

- O DCE achou correta a atitude dos estudantes que jogaram um cavalete de madeira na cabeça dos policiais? Achou correta a atitude do estudante que subiu na viatura? Se não, pretende tomar alguma medida – como uma moção de repúdio, por exemplo?

- Os estudantes envolvidos na manifestação acreditam estar cometendo algum crime? Se não, porque só circulam pelo local com o rosto tapado com panos?

Por hora, permaneço achando que a USP deveria seguir o exemplo da UFF. Aqui uma demanda legítima – impedir a construção da Via 100 e Via Orla – uniu professores e estudantes que muitas vezes nem participam das manifestações e, quando a polícia chegou, houve negociação, o prédio foi esvaziado e a reitoria recebeu uma comissão para negociar as pautas. Não sei não, mas eu acho que assim é que se faz...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Dilmetaleira

Montagens de vídeo tem aos montes no YouTube. Mas essa é uma das melhores que eu vi recentemente. Nela, a presidenta Dilma Rousseff aparece em sua versão... digamos... metaleira, ao som de System of a Down. Vale o confere!