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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Liberdade de expressão? Aqui?!?

Quanto mais genial é um pensador, mais atemporal é sua obra. E tive um bom exemplo disso hoje, quando estava lendo um livro do Erich Fromm - O Medo à Liberdade.

Fromm é um autor que eu gosto muito, mesmo não conhecendo (ainda) toda sua obra. Neste livro ele mostra o quanto o homem tem medo da liberdade pelo fato de esta palavra significar, não raro, isolamento, individualidade e, consequentemente, angústia. O autor joga por terra a noção de liberdade que nós em geral temos e propõe algumas reflexões sobre o tema. O trecho que me deixou, digamos, incomodado foi o seguinte:

Achamos que a liberdade de expressão é o último passo na marcha para a vitória da liberdade. Esquecemos que, conquanto a liberdade de expressão constitua uma vitória importante na batalha contra as restrições antigas, o homem moderno se encontra em uma situação em que muito do que “ele” pensa e diz são as coisas que todos os demais pensam e dizem; que ele não adquiriu a capacidade de pensar originalmente – isto é, por si mesmo –, a única que pode dar conteúdo à sua alegação de que ninguém pode interferir na manifestação de suas idéias.

Não há nada mais atual do que esse texto, escrito em 1941, no meio da Segunda Guerra Mundial. Hoje vejo nas conversas informais e, principalmente, nas redes sociais uma defesa arraigada da liberdade de expressão. Entretanto, podem me chamar de ingênuo, mas não consigo notar cerceamento algum – pelo contrário, todo mundo tem o direito de dizer o que quiser, desde que se responsabilize por isso. O problema maior é que, na mão desses defensores, liberdade de expressão tornou-se liberdade de repetir o que já foi dito. E nisso não há liberdade alguma.

Retomando o trecho de Fromm, enquanto essa moçada não começar a pensar por conta própria, livre de influências manipulações externas, haverá somente uma falsa sensação de liberdade. Mas ela é prazerosa. Então, vamos defendê-la...

Por hora, fico com as palavras do Gabriel, o Pensador: “Liberdade de expressão? Aqui?! Ah... Não existe!”

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Resultado da promoção!

Galera, foram muitos RTs, várias pessoas participando da promoção – o que me deixou bem feliz, não só por que se tratava do meu livro, mas porque mostra que os tuiteiros também estão se interessando por crítica literária. Mas só um poderia ganhar.

E o ganhador foi...

@senhor_h!

Parabéns, meu nobre! Mas se você não me enviar seu endereço até às 12h desta quinta-feira (22), serei obrigado a fazer outro sorteio! Então não dê bobeira!

Quem está achando que teve marmelada, pode ver o resultado do sorteio aqui!

Quem não ganhou o livro, pode comprar aqui!

Obrigado a todos pela participação!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

É possível perder um talento?

De todos os livros do Philip Roth que eu li, creio que A Humilhação representa melhor o universo deste tão premiado escritor. Nele, Roth coloca em questão a noção de talento ao apresentar para o público um ator que perdeu toda a sua capacidade de encenar.

Como de costume na obra do Roth, o protagonista é um homem idoso. O livro tem um texto bastante forte, com palavras e expressões contundentes, cheio de referências à psicanálise, a outras obras da literatura e, mais particularmente neste romance, ao teatro.

O protagonista, Simon Axler, é um dos principais atores de teatro de sua geração. De um dia para o outro, a capacidade de atuar desaparece sem deixar vestígios. “Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar.” Daí em diante, sua vida vai em uma decrescente constante. Tem relacionamentos conturbados com mulheres, se envolve com uma ex-lésbica e imerge em uma arriscada aventura sexual – “E se ele acabasse sendo apenas um rápido parênteses de intrusão masculina numa vida lésbica?”. O desfecho da trama é eletrizante, súbito e surpreendente.

Eu, que não sou exatamente um apaixonado por teatro (ok, tem meses anos que eu não vejo uma peça, mas também não dá pra fazer tudo, né?), já achei “A Humilhação” um livro muito bom. Talvez este romance dialogue ainda melhor com quem entende de artes cênicas mais a fundo. Shakespeare é citado nos diálogos, assim como a mitologia grega. É um texto rápido – o livro tem só 102 páginas – com um forte potencial teórico.

Como não poderia deixar de ser, encerro esse post com uma passagem que resume bem o espírito do livro:

Quando você representa o papel de uma pessoa que está entrando em parafuso, a coisa tem organização e ordem; quando você observa a si próprio entrando em parafuso, desempenhando o papel da sua própria queda, aí a história é outra, uma história de terror e medo.
Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel.


P.s.: Só como curiosidade, A Humilhação é (pasme) o trigésimo livro do Philip Roth.

P.s. 2: As capas dos livros do Philip Roth são sempre magníficas. Vale muito a pena comprar o livro para ter essa beleza em sua estante...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Retrospectiva literária

Fim de ano é tempo de retrospectivas. Então, para entrar no clima, resolvi publicar a listinha dos livros que eu li desde o início do ano. Tudo bem que 2011 não foi um ano que eu pude me dedicar à leitura como eu gostaria – a conclusão do Mestrado me deixou uns bons meses me dedicando só à entrega da minha dissertação. Então, que 2012 seja um ano mais tranquilo para que a próxima lista seja mais extensa!

Segue a listagem em ordem cronológica:

1 – A fúria do corpo (João Gilberto Noll)
2 – As aventuras de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll)
3 – A sociedade individualizada (Sigmunt Bauman)
4 – Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (Lewis Carroll)
5 – Drácula (Bram Stoker)
6 – A humilhação (Philip Roth)
7 – O enterro do anão  (Chico Anísio)
8 – Rei Édipo (Sófocles)
9 – A linguagem proibida (Dino Preti)
10 – Este lado do paraíso (F. Scott Fitzgerald)
11 – A cortina de ouro (Cristovam Buarque)
12 – Leite derramado (Chico Buarque)
13 – Louca por você (Fernanda Belém)
14 – O medo à liberdade (Erich Fromm – em andamento)

Então já sabem, caros leitores: se for me dar um livro de presente de Natal, que não seja nenhum desses, porque esses eu já li!

Brincadeiras à parte, eu gostei de todas as minhas leituras. Fica esse post como sugestão de bons livros para 2012!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Promoção!

Promoção quentinha pra esse fim de ano! Vou sortear um exemplar do meu livro – Literatura, Política e Linguagem – entre os leitores do blog.

Não conhece meu livro ainda? Aqui vai a sinopse:

O que diferencia a linguagem cotidiana da linguagem usada na política? Como literatura e política dialogam entre si no contexto contemporâneo? Pode a literatura representar os valores e conceitos de uma determinada sociedade sem cair nos tão combatidos estereótipos? Em seu livro de estreia, o autor procura levantar um debate sobre representações políticas e culturais que podem ser observadas sob diferentes aspectos na sociedade contemporânea.

Gostou? Então participe! Você precisa:

1 - Morar no Brasil

2 – Publicar essa frase no Twitter: Quero ganhar o livro “Literatura, Política e Linguagem”, do @diretodaredacao http://kingo.to/VXR

3 - Precisa seguir no Twitter: @diretodaredacao

4 - Após o resultado do sorteio, o vencedor tem até 24h para responder a DM com seu endereço para que eu possa enviar o livro. Caso não responda, um novo sorteio será realizado.

A promoção termina nesta quarta-feira (21). Boa sorte!

P.s.: Quem quiser comprar o livro, só entrar aqui.

O primeiro de muitos?

É muito difícil fazer uma crítica do trabalho de alguém que você gosta muito. Primeiro porque você fica emocionalmente comprometido por gostar da pessoa e isso pode tornar sua visão nublada. Segundo pelo medo de que a crítica – no seu sentido mais puro – seja entendida como um ataque pessoal, ou algo do tipo. Este foi o meu desafio ao escrever sobre o livro “Louca por você”, da Fernanda Belém.

A Fernanda é uma grande amiga minha e isso eu já falei aqui no blog. O livro dela tem uma linguagem bastante jovial e fala sobre a peleja de uma jovem – Renata – para ter o ex-namorado – Vítor - de volta. O problema é que ele já tem outra namorada e isso complica a vida dos dois. No romance, a autora aborda temas como virgindade, traição, fidelidade, paixão e amizade sem pudores ou falsos moralismos. E com a delicadeza de quem tem o dom da palavra.

A narrativa é feita em primeira pessoa sendo que a Renata e o Vítor se revezam como narradores. Esse é um ponto bastante positivo que merecia ter sido mais explorado.

São poucas as passagens em que Vitor assume a forma de narrador e isso é muito ruim. A autora fica no meio termo entre criar uma linha narrativa diferente – com dois narradores – e manter um padrão tradicional – com apenas um narrador. A criação de novidades estéticas em uma obra deve ser feita sem indecisão por parte do autor. Em outras palavras: se vai fugir à tradição, que faça com força.

Novamente, a autora mostra um pouco de hesitação ao incluir os e-mails trocados pelos personagens no texto. No capítulo 10 isso fica claro. Ela introduz o capítulo com quatro paragrafinhos e coloca a íntegra de um e-mail enviado por Renata ao Vítor. Depois, mais quatro paragrafinhos e a resposta do Vítor. No fim das contas, essa inserção da narradora entre um e-mail e outro é desnecessária. O leitor é capaz de entender que se trata de uma troca de e-mails entre os personagens e o contexto em que ele se dá. A autora perde a oportunidade de quebrar a sequência narrativa que vinha desenvolvendo e surpreender o leitor com isso.

No todo, o resultado é bastante positivo. O texto tem um ritmo bom e prende a atenção do leitor. É lógico que o leitor deve ter em mente que está diante de um livro voltado para o público mais jovem. Mas isso não desvaloriza em nada o livro. Muito pelo contrário: escrever para jovens é algo extremamente louvável. Que a Fernanda afine seu estilo de escrita e seja mais ousada em seus próximos livros. Pois este, obviamente, será só o primeiro de muitos. Assim esperamos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um murro na boca do estômago

Fiquei um tempo sem postar nada por aqui – sabe como é, né?, a correria do dia a dia, a vontade de relaxar nos fins de semana, a dedicação ao meu próximo livro (isso mesmo, estou escrevendo mais um!), tudo isso somado acabou me afastando um pouco do blog. Mas ontem surgiu algo que me fez separar um tempinho para sentar na frente do computador e escrever.

Estava eu num bar com um coleguinha falando amenidades. Fechamento de jornal, cinema, furos, TV, literatura e... Espera aí! Você não conhece João Gilberto Noll?!

Não, ele não conhecia João Gilberto Noll. Como muita gente infelizmente não conhece. Como eu mesmo não conhecia até meados de 2009.

Entrei em contato com a obra do Noll no Mestrado. Eu fazia uma disciplina sobre alegorias, melancolia e abjeção. No final do semestre eu teria que fazer uma monografia sobre algum romance que pudesse aplicar um desses conceitos. Ainda meio perdido, pedi ajuda a um professor amigo meu e ele me sugeriu pegar algum romance do Noll. Fiquei com medo de escolher um autor cuja obra eu ainda não conhecia para analisar um livro dele isoladamente. Fiz meu trabalho final sobre o Os Deuses Subterrâneos, do Cristovam Buarque, que acabou virando um capítulo do meu livro. E acabei adiando a minha primeira vez com o Noll.

No semestre seguinte eu não tive escapatória. Fazendo uma disciplina chamada Ficções do Desassossego não tive como adiar mais meu encontro com o Noll: a professora pediu logo nas primeiras semanas que lêssemos um livro dele para a semana seguinte. Daí conheci Lorde.

O livro já é meio chocante pela própria capa. Não se sabe se é um ombro masculino ou um homem de quatro. O texto é bastante desarrumado: há uma pontuação própria, um fluxo de pensamento único que segue da primeira à última página. Lorde conta a história de um escritor latino-americano perdido em Londres. A dúvida permeia toda a narrativa. O trajeto é o fim em si. Um personagem errante que perturba o leitor com frases e imagens fortes a todo o momento. Gostei.

Meses depois, ganhei do meu irmão outro livro do Noll que me fez ficar apaixonado por este escritor que eu infelizmente conheço pouco até hoje. Trata-se de A fúria do corpo.

O livro é de 1981 e mostra toda a coragem e ousadia de um escritor que não teve medo de, naquela época, mostrar todo o potencial da imundice humana. Caralhos, bocetas, lixo, drogas, porra, merda, putas, bixas. Tudo isso envolto na atmosfera sombria de uma Copacabana que deixava de ser a princesinha para se tornar a puta.

Um personagem sem nome (“o meu nome não. Vivo nas ruas ode um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita”: começa assim mesmo o romance, sem letra maiúscula na inicial) e uma mulher que atende pela alcunha de Afrodite. Ele: sem teto, sem comida, sem rumo. Ela: garota de programa. Os dois: apaixonados.


 
Como é comum na obra do Noll, o texto é todo não-linear, com uma pontuação peculiar, parágrafos que se estendem por páginas e páginas, nada de muita novidade em relação ao anterior. O que chama a atenção é a violência com que as palavras atingem o leitor. Parece que a ferocidade dos personagens atinge a todos indiscriminadamente. São frases fortes, não raro com um cunho político bastante contundente. “ Sabe que nós dois não comemos há dois dias e meio e que assim mesmo há um Governo sobre nossas cabeças?”, diz o personagem-narrador para Afrodite em um determinado momento. “Por todos os cantos das ruas homens e mulheres mijam sem se preocupar com esconder cacetas e xotas. Enfim, é Carnaval. O Rio mija o que a Brahma supre enquanto vem aí a banda da Miguel Lemos”, descreve, em outro contexto.

Há quem possa perguntar porque ler um livro tão contundente com tamanha agressividade. Respondo: todo mundo precisa de um murro no estômago vez ou outra para se sentir humano. E encerro com mais uma passagem deste romance:

“E se morto reconheço a exatidão de tudo, não é preciso pranto sobre a desintegração da carne. Sou morto sim. Mas vivo ainda, como a fruta que se transforma num viveiro de bichinhos e vai expelindo aí o derradeiro furor da vida na sua carne mortuária.”

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Livros independentes

Gosto muito de produção cultural feita de forma independente. Aquela galera que se vira pra publicar seu próprio livro, pra gravar sua música, fazer seu curta-metragem etc. Estes sempre podem contar comigo pra dar um apoio que, da forma que puder, vou tentar ajudar.

Gosto muito também de eventos que incentivam este tipo de produção cultural. Festival de cinema, de música, feira literária e tudo o mais. Novamente, sempre vou ajudar a divulgar os que me pedirem ajuda.

Pois bem, para cumprir minha recém-formulada promessa, vou falar sobre a 11ª edição Primavera dos Livros, que começou nesta quinta e vai até domingo (27) no Museu da República, no Catete.

Foto: Divulgação.
A Primavera dos Livros é o maior encontro de editoras independentes do país. Nele, serão realizadas várias atividades, como debates e lançamentos de livros. A escritora Heloísa Buarque de Hollanda será a homenageada desta edição.

A programação completa, você pode ver aqui. Mas gostaria de destacar algumas atividades que chamaram mais a minha atenção.

Nesta sexta (25),  às 13h, o coleguinha Osvaldo Maneschy lança o livro Leonel Brizola - a legalidade e outros pensamentos conclusivos, produzido sob sua organização e publicado pela editora Nitpress. Maneschy é jornalista e, atualmente, ocupa a Secretaria Municipal de Trabalho em Niterói. Tive oportunidade de conversar algumas vezes e, em todas as nossas conversas ele mostrou ser uma pessoa extremamente inteligente, o que torna seu livro é uma promessa de boa leitura.

No sábado (26), o cantor e compositor Martinho da Vila participa de uma mesa redonda, às 18h, com o título “Afrodescendências: nossas heranças”. Acredito que este será um dos pontos altos do evento, assim como a homenagem à Heloísa Buarque de Hollanda, que acontece um pouco depois, às 19h30. Também no sábado, o coleguinha Luiz Antônio Mello, da Coluna do LAM, também faz seu lançamento. O Manual de sobrevivência na selva do jornalismo (Nitpress), será lançado às 11h.

Trata-se de um evento gratuito, onde muitas trocas produtivas poderão ser realizadas. Este promete ser um bom espaço para trocar ideias e conhecer bons autores que estão fora das estantes das mega stores.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os caracteres da velhice

Aristóteles descreve, no segundo livro da Retórica, as características dos idosos. São “desconfiados, devido à sua experiência”; “amam a vida, sobretudo nos seus últimos dias, porque o desejo busca o que lhes falta e o que lhe faz falta é justamente o que mais se deseja”; “são pessimistas”; “em tudo vêem um mal que os ameaça”...

Chico Buarque parece ter lido com bastante atenção a Retórica de Aristóteles, já que é basicamente este o clima do seu romance Leite Derramado.

Lendo este livro – que eu ganhei no início do ano, mas só tive tempo de pegar para ler agora – eu consegui entender porque ele foi tão premiado. Não é para menos: o livro é sensacional, tanto na forma em que ele se apresenta quanto no conteúdo apresentado.

Leite Derramado presenteia o leitor com a história de um homem de 100 anos, no leito de um hospital, narrando suas memórias. Em alguns momentos, quem anota o que o velho Eulálio está dizendo é uma enfermeira. Em outros, é a filha. O interlocutor muda de figura o tempo todo e, constantemente, o narrador se dirige a este interlocutor: “Bom dia, flor do dia, mas deve haver modos menos agourentos de se despertar que com uma filha choramingando à cabeceira”, diz no início de um capítulo. “Lá vem você com a seringa, é melhor dormir, tome meu braço”, diz, encerrando outro.

O mais interessante é a intensidade com que o autor, que tem 67 anos, imerge na mentalidade de um homem de 100 anos e pinta toda a história com as cores de uma pessoa com a idade já bem mais avançada. O narrador confunde personagens em um momento; em outros, diz que vai chamar os próprios pais, que já estão falecidos; conta a mesma história mais de uma vez em um curto período de tempo.

Em suma, é um livro de leitura rápida, mas que requer bastante atenção – principalmente ao nome dos personagens, pois o leitor mais distraído pode acabar cometendo confusões. Sua linguagem é simples e direta, mas a narrativa, até por se tratar de um livro de memórias, é toda em tempo psicológico. Não há respeito a uma cronologia muito estrita. Destaque para o modo como o Rio de Janeiro é descrito nas entrelinhas e para o fato de que tudo que é mais precioso para este narrador se despede aos poucos dele com o passar dos anos. Uma excelente reflexão sobre o fim e os fins da vida.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma trilogia de quatro livros

Quando se pensa em uma trilogia, por analogia, tem-se a ideia de três obras que compõem um conjunto maior. Esta é a definição mais convencional de todas. Mas nada em Fernando Gabeira é muito convencional.

Todo mundo sabe que não é de hoje que eu sou fascinado pela produção intelectual do Gabeira. Discordo dos críticos, que encerram a Trilogia de Depoimentos do nosso mineiro (sim, Gabeira nasceu em Juiz de Fora) em “Entradas e Bandeiras”. Só porque, diferente dos anteriores, “Hóspede da Utopia” é uma obra de ficção ele deixa de entrar na série? Não, eu não consigo concordar com isso. Mas vamos por partes.

Quando Gabeira volta do exílio, ele decide contar suas impressões sobre os três momentos que passou durante o período da Ditadura Militar. É aí que surge “O que é isso, companheiro?”, livro que inspirou o filme de Bruno Barreto. Nele, o autor conta seu primeiro desafio: como enfrentar o regime militar.


Um golpe militar é um pouco como uma grande e emocionante peça de teatro. Quando termina, você sente um grande impulso para estar junto das pessoas de quem gosta, ou mesmo telefonar para saber se estão bem.

O autor descreve – de forma bastante crítica, por sinal – o funcionamento e a organização dos grupos de esquerda que viviam na clandestinidade, o comportamento dos jovens marxistas, até chegar ao famoso sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick. Daí até a cadeia. Da cadeia até o exílio – tema do segundo livro da série.

“O crepúsculo do macho” trata do período em que Gabeira foi parar no exílio. Como ficar quase 10 anos longe de seu país, sem informações sobre seus amigos e familiares? Como se integrar forçadamente à uma nova cultura, sem saber por quanto tempo terá que fazer parte daquela sociedade?

Ninguém será enganado: isto é uma viagem. Lembra-se dos filmes de bangue-bangue nos cinemas empoeirados do subúrbio? Lembra-se do momento em que a diligência ia ser atacada pelos índios? Era sempre num desfiladeiro. Cada vez que os cavalos pisavam a entrada do desfiladeiro, nossa angustia era precipitada pelos efeitos sonoros, anunciando que, a qualquer instante, a lona do carro seria crivada de flexas. Pois bem: é essa a angústia que sinto, quando entro na plataforma da estação central de Estocolmo.

Esta sequência de imagens é nada menos do que o primeiro parágrafo do livro. Pelo golpe inicial já dá para ter uma noção do tom angustiante que tomará conta de toda a narrativa. Mas, paralelamente a toda esta angústia, há contos e casos curiosos. Como na entrevista concedida por Gabeira.

O autor trabalhava como condutor de trem em Estocolmo. No réveillon, um grupo de jornalistas quis fazer uma matéria sobre pessoas que trabalham durante a madrugada e, consequentemente, passariam a virada do ano no trabalho – como condutores de trem e jornalistas, conforme exemplifica o autor, ironizando de suas duas ocupações. Chegando lá, os repórteres deram de cara não só com um trabalhador-da-madrugada, mas com um intelectual exilado político de um país de terceiro mundo que se tornara, por necessidade, um trabalhador-da-madrugada. E a entrevista se prolonga bem mais do que o previsto.

O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa e Gabeira ganha o direito de voltar ao Brasil, em 1979. Como voltar ao seu país após ficar quase 10 anos longe dele, sem informações sobre seus amigos e familiares? Quais as impressões sobre o novo país? Seria o mesmo que ele havia deixado para trás? São estas e outras perguntas que ele tenta responder em “Entradas e Bandeiras”.

“Entradas e Bandeiras”, na minha mais humilde opinião, é o melhor livro da série. Gabeira faz uma análise extremamente madura e bastante peculiar da sociedade brasileira no início dos anos 1980. Observa a ascensão do movimento ecológico, do movimento gay, as patrulhas ideológicas, os desmandos da esquerda. Se eu tivesse que escolher um único parágrafo para exemplificar toda a obra, seria o seguinte:

Culturas independentes como a dos negros exigiam um direito de existência. Os homossexuais, mantidos sob o signo do preconceito, começavam a se organizar em quase toda a parte. Os loucos, os velhos, as crianças, em breve iam abrir os olhos para o processo de opressão a que estavam submetidos. A sorte da nossa época dependia do proletariado. Seria ele capaz de captar essas novas tendências, ou embarcaria pura e simplesmente nas águas da repressão silenciosa e disfarçada contra milhões de seres humanos?

E com este livro, Gabeira encerra, para muitos críticos, sua trilogia de depoimentos. Mas discordo frontalmente desta marcação. Acredito que o quarto livro do autor se insere no mesmo campo dos demais. Apesar de ser uma obra de ficção.

É o “Hóspede da Utopia” que encerra os relatos de Gabeira sobre a ditadura. Nele, um casal errante busca da felicidade em sua forma mais plena. Uma história de amor, que tenta responder à pergunta formulada por Gabeira, assim que ele volta do exílio:

“Os políticos podem dar o balanço do número de mortos, do número de cassados, refugiados, banidos. Mas quem dará o balanço do medo dos projetos humanos que se frustraram, dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo? Quem dará o balanço do medo que nós tivemos?”

Desta forma, venho por meio deste post tentar corrigir um erro histórico – a idéia de que a Trilogia Série de Depoimentos do Gabeira tem apenas três livros. Há um quarto que, por trás de personagens fictícios, aparece um Fernando, que vai se revelando pouco a pouco nas entrelinhas de uma primorosa narrativa.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um livro de ouro

Todo mundo sabe que eu admiro – e muito – o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Em 2006 participei de sua campanha à Presidência, mas só mais tarde tomei conhecimento de sua obra literária. E me fascinei logo de cara. Tanto que um dos capítulos do meu livro é exclusivamente sobre “Os Deuses Subterrâneos”. Agora venho falar sobre outro livro do Cristovam – este, de não-ficção – que também merece destaque: “A cortina de ouro”.



Cristovam nos presenteia com um livro simples e direto sobre os “sustos” do final do século XX e os desafios para o homem dos anos 2000. Publicado em 1995, a obra é basicamente a transcrição de uma conferência realizada pelo autor com o título de “Os sustos do final do século”.

Em suma, o raciocínio que se desenvolve é o seguinte: a partir das projeções feitas por artistas e intelectuais do século XIX de como seria o século XXI, Cristovam faz análises sobre o que de fato foi realizado e em que aspectos a sociedade ficou aquém da utopia criada por tais pensadores. A conclusão a que se chega é que, do ponto de vista técnico, a sociedade avançou enormemente – muito mais do que imaginado. Em contrapartida, a realidade social que se apresenta é ais devastadora do que as mais pessimistas projeções. Ou, nas palavras do autor, “o avanço técnico não serviu para construir uma sociedade utópica”.

Um belo exemplo usado pelo autor é o avanço da medicina. Há alguns séculos, não havia cura para grande parte das doenças. Tanto os ricos quanto os pobres pereciam dos mesmos males. Hoje, já há vacinas e tratamentos dos mais sofisticados. Mas seu uso, em muitos dos casos, é restrito apenas aos ricos – enquanto pobres ainda morrem sem tratamento.

Ainda no que diz respeito aos avanços técnicos no campo da medicina, Cristovam cita o transplante como outro bom exemplo para esta desigualdade entre avanço técnico e desenvolvimento social:

Ninguém acreditava, há cem anos, que antes do final do século XX o transplante seria uma prática comum na medicina. Muito menos que a desigualdade estaria tão acirrada, que crianças seriam traficadas, mortas, para que seus órgãos fossem transferidos a outras crianças.

O livro é de uma abordagem impressionante para um tema ao mesmo tempo tão delicado e relevante para todos aqueles que querem lançar um olhar mais crítico sobre o século XXI e seus desafios. A leitura é imprescindível. E não adianta alegar que está sem tempo para ler: são 120 páginas, divididas em capítulos curtos, dá para ler rapidinho.

Por fim, gostaria de incluir neste post mais uma passagem do livro:

Para assombro de muitos observadores do mundo das ideias e das ideias do mundo de hoje, Aristóteles ou Platão parecem explicar melhor com seus pensamentos simples a simplicidade da sociedade grega de sua época do que os sofisticados acadêmicos e cientistas sociais de hoje são capazes de explicar as sofisticadas economias e sociedades contemporâneas deste final do século. E todos os homens se assustam com esta constatação.

sábado, 5 de novembro de 2011

Frases fortes, narrativa entediante

A minha mais recente leitura foi um livro que estava na minha lista (sim, eu tenho uma lista de "próximas leituras") há alguns anos (pasme), mas só agora tive saco tempo de pegar para ler. E até que gostei. Em partes. Trata-se do Este lado do paraíso, do F. Scott Fitzgerald (lê-se “Fitzgérald”).

O livro, publicado em 1920, quando o autor tinha 24 anos, conta a história de Amory Blaine, “o egocêntrico romântico”, desde quando ele era uma criança mimada até a fase adulta, cheia de responsabilidades e cobranças. O personagem, como o próprio Fitzgerald admite, deixa transparecer muito sobre o autor. “Não gostaria de falar de mim, pois admito que já o fiz bastante neste livro”, diz no prefácio “Uma justificativa do autor”.


No todo, pode-se dizer que o romance é legal. Entre drinks e festas de universidade, os personagens nos presenteiam com frases fortes e pensamentos bastante marcantes. Aliás, este é um dos pontos altos do livro, que fazem compensar a narrativa lenta adotada pelo autor. Mas entre um tédio e outro, somos surpreendidos com algo do tipo:

“Se alguém não puder ser um grande artista ou um grande soldado, o melhor que lhe resta é ser um grande criminoso.”

Ou ainda:

“Não é que eu me incomode com esse brilhante sistema de castas”, confessou Amory. “Gsto de saber que os primeiros lugares cabem aos sujeitos alinhados, mas puxa vida, Kerry, tenho de ser um deles!”

Amory é um personagem que alterna entre a frivolidade e um profundo conhecimento artístico/literário. Em diversas passagens ele discute o valor de uma obra de arte com algum de seus amigos. Em outras, ele revela um desejo de pertencer às classes mais elevadas da hierarquia social de Princeton. No todo, acaba sendo um personagem bastante interessante.

As últimas passagens do livro fazem valer toda a leitura. São nas últimas páginas em que aparece a definição de Amory bastante peculiar para “classe média”:

“Estes homens de mentalidade mofada, que apenas alisaram os bancos escolares, que pensam que pensam cada questão que surge... bem, gente assim encontra-se em cada esquina. Num momento eles se manifestam sobre ‘a brutalidade e desumanidade desses prussianos’ e, logo em seguida, declaram que ‘deveríamos exterminar todo o povo alemão’. Estão sempre acreditando que ‘a situação, agra, não está nada bem’, mas eles ‘não têm qualquer fé nesses idealistas’. Num minuto afirmam que Wilson ‘não passa de um sonhador, não é nada prático’, e daí a um ano aderem a ele por ter tornado seus sonhos realidades. Não possuem ideias claras e lógicas sobre um único assunto, exceto uma posição retrógrada e insensível a qualquer mudança. Julgam que as pessoas sem instrução não deveriam ser bem pagas, mas não percebem que se não pagarem bons salários a essa gente seus filhos também não terão uma boa educação, o que nos leva a um círculo vicioso Essa é a famosa classe média.”

No todo, é uma leitura que oscila entre diálogos muito interessantes e trechos bastante arrastadas. Vale a leitura, pois é um retrato não só de um personagem, mas de toda uma geração.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Louco por ela

Acho que estou ficando bom nessa história de escrever sobre um livro que ainda nem foi lançado. É isso que dá ter diferentes amigos que se interessam pelos meios literários. Mas não tem como esperar até o mês que vem para poder escrever sobre um livro que eu acompanhei bem de pertinho a construção. Trata-se do “Louca por você”, de autoria da minha amiga Fernanda Belém.



Eu posso falar mais sobre a autora do que sobre a obra em si, já que eu ainda não li o livro (calma, gente ele só sai em novembro!). Mas a autora eu conheço bem.

Flamenguista fanática, jornalista, blogueira, companhia inteligente para qualquer programa. E como todo escritor tem que ser, antes de mais nada, um bom leitor, Fernanda é uma das leitoras mais vorazes que eu conheço – chegando a uma média de 100 livros lidos por ano, o que eu nunca consegui entender como é que funciona. (Eu costumo ler uma média de 15-30 por ano, num bom ano.) Tudo isso sempre com um sorriso estampado no rosto (acho que nunca vi a Fernanda chateada, ou de cara amarrada, ou coisa do tipo).

Mas como o que interessa é a obra, vamos ter que recorrer novamente ao material de divulgação distribuído à imprensa:

“O que acontece quando um reencontro desperta um sentimento que você acreditava já ter esquecido? Renata achava que precisava apenas de um pouco de agito no namoro com Rodrigo. A rotina dos três anos de relacionamento havia acabado com todo tipo de frio na barriga e até mesmo com a paixão. Mas como agitar uma pessoa que parece não querer sair do lugar? Desesperada por mais emoções nos seus vinte e poucos anos, Renata decide mexer com o passado.

De repente, o simples envio de um convite de aniversário para o antigo namorado faz o mundo virar de cabeça para baixo. Renata encontra no ex a adrenalina que tanto sentia falta. O problema? Ele também era comprometido. Entre e-mails, amigas, brigas, confusões, encontros, desencontros, ciúmes e tentações, Renata tenta amadurecer e espera tomar a decisão certa.”

Quem quiser conversar com essa figura e conferir o “Louca por você”, Fernanda vai estar autografando o livro no dia 18 de novembro, a partir das 19h, na livraria Saraiva, no Plaza Shopping. E quem quiser perturbá-la no Twitter, ela responde pelo @nandabelem - pode perturbar que eu deixo.

sábado, 22 de outubro de 2011

De calouro a escritor

Eu frequentemente falo/escrevo sobre algum livro que eu li e gostaria de ressaltar algum ponto que achei relevante. Geralmente esse livro é de um escritor que eu não conheço pessoalmente e possivelmente nunca vou conhecer. Ou porque já morreu, ou porque é estrangeiro. O tema do post de hoje é o extremo oposto: vou falar de um livro que ainda nem foi lançado, de autoria de um escritor conhecido meu.

Trata-se do Projeto Labirintho, que o coleguinha Renan Barreto vai lançar no dia 18 de novembro, em Niterói (mais precisamente no Bistrô MAC, às 20h). Pouca gente sabe, mas o Renan foi meu calouro na Universidade Candido Mendes e dei trote nele (sim, eu fazia isso na faculdade, gente, eu já tive meus 19 anos). Hoje ele é blogueiro, profissional de marketing digital e já está no seu segundo livro.

Projeto gráfico da capa do livro do Renan | Divulgação

Como o livro ainda não foi lançado e, consequentemente, não pude ler e fazer minhas observações, vou reproduzir um trechinho do material de divulgação da obra.

“O livro conta a história de seis personagens de maneira não linear. São 14 capítulos com introduções que levam a interpretações que vão mudando a cada novo ‘episódio’. Mesmo não havendo linearidade extrema como nos livros tradicionais, ele possui uma história cujas lacunas vão sendo preenchidas até o último instante. Esses personagens são postos em situações complicadas numa prisão e, então, tentam fugir dela. Durante a jornada, eles se encontram, desencontram e vão conectando todos os pontos num clímax desesperador e, ao mesmo tempo, surpreendente.


Em Projeto Labirintho há uma gama de referências à cultura pop, que satirizam de certa forma, o que se vê no cenário atual da arte, principalmente cinematográfica. Isso porque o livro foi concebido primeiramente como um roteiro para cinema.”

Acho bem legal ver a galera da minha geração militando no meio literário – que costuma ser tão fechado para novos escritores. Espero ver ainda muitas figuras em quem dei trote me mandando material de divulgação do lançamento dos seus livros.

Quem quiser falar com o Renan sobre o lançamento, ele responde por @Renan_Barreto no Twitter. Só procurar por lá - ele é legal e responde todo mundo. E nos vemos no lançamento!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Capitães sim, com muito orgulho

ATENÇÃO: esse post é cheio de spoilers. Se você não leu o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado, e/ou não viu o filme, não leia se não quiser saber partes da história. Estou aqui para contar a minha opinião sobre a adaptação cinematográfica e posso acabar estragando a brincadeira de um de vocês sem querer.

Advertência dada, vamos ao que interessa. Já falei duas vezes sobre esse livro do Jorjamado. Primeiro sobre o cunho político do romance. Segundo sobre o trailer. Agora vamos ao filme propriamente dito.

O filme é sensacional. A diretora Cecília Amado consegue resolver muito bem os vários obstáculos de uma adaptação cinematográfica e apresenta um trabalho final brilhante. O fato de só haver atores desconhecidos no elenco não deixa nada a desejar. A fotografia também é belíssima, tornando as ruas de Salvador um personagem a mais na história. Só observei um problema na adaptação: a diretora pega leve demais.

O filme é de uma leveza sem igual. (Algumas pessoas que saíram comigo do cinema acharam o filme meio lento; eu discordei.) A violência é atenuada, os conflitos são atenuados, a tristeza é atenuada, o ódio é atenuado, tudo é atenuado. Até demais.

Há quem diga: “nossa, mas no filme tem cenas bastante agressivas”. No livro essa agressividade é bem maior.

Pedro Bala (Jean Luis Amorim) – o líder dos Capitães – termina o filme como o herói, o grande líder, o bonzão. Mas não é bem assim. Em um determinado trecho do livro, ele estupra – isso mesmo: estupra – uma menina na praia. Mas ele não é de todo mau: sabendo que a garota era virgem, ele promete que fará apenas sexo anal, “preservando” a virgindade dela. Terminado o ato sexual forçado, Bala deixa a menina ir embora. A despedida dela?

"- Peste, fome e guerra te acompanha, desgraçado. Deus te castiga, desgraçado. Filho de uma mãe, desgraçado, desgraçado."

Mas ele se arrepende pela “pobre negrinha, uma criança também”. Só que nada disso aparece no filme. Só não sei se a diretora julgou esse episódio irrelevante para a trama ou se apenas se acovardou, com medo de que o filme gerasse polêmica e isso prejudicasse o desempenho comercial da obra.

O desfecho do filme é permeado por dois extremos. Se por um lado ela consegue narrar em alguns minutos o desfecho de cada um dos personagens, o destino de Sem-Pernas (Israel Gouvêa) – um dos Capitães, que tem esse nome por ser coxo – é atenuado. Sem-Pernas, que é um dos meninos que mais tem ódio no coração, foi torturado pela polícia enquanto ainda era bem pequeno. No livro, ele termina sendo perseguido pela polícia pelas ruas de Salvador.

"Muita gente o tinha odiado. E ele odiara a todos. Apanhara na polícia, um homem ria quando o surravam. Para ele é esse homem que corre em sua perseguição na figura dos guardas. Se o levarem, o homem rirá de novo. Não o levarão."

Sem-Pernas fica encurralado e se joga de um precipício. Suicídio. “Se arrebenta na montanha qual um trapezista de circo que não tivesse alcançado o outro trapézio”. Triste fim de um menino de rua coxo e faminto. No filme, apenas aparece o Professor (Robério Lima) e Zé Fuina (Felipe Duarte) especulando sobre o futuro do grupo e dizendo que Sem-Pernas possivelmente irá para o circo e será trapezista - em uma referência clara ao suicídio do personagem. Bem mais light, entretanto, que a versão original.

No todo, como eu disse inicialmente, o saldo do filme é bastante positivo. As cenas de capoeira são bem coreografadas e o roteiro não apresenta falhas. Motivo de orgulho para o cinema nacional.

Para quem se interessou, segue o trailer:



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Capitães do Cinema

Há alguns dias falei do livro Capitães da Areia, do Jorjamado. Pois bem. Agora chegou o filme.

Eu sabia que o filme estava sendo produzido desde o meio do ano passado, mas não sabia previsão de lançamento. Sexta-feira, quando voltei do trabalho, vi um cartaz do filme. Fiquei todo animado, pois o livro é excelente e rende um bom roteiro cinematográfico. Daí chego em casa e vejo que o filme foi exibido na sexta à noite, no Festival do Rio. Ou seja: eu achando que o filme ainda iria entrar em cartaz e ele já teve até sua estreia...

Para quem se interessa pela história de Pedro Bala, Dora, Professor e o resto do grupo, segue o o trailer, que, por sinal, é bem atraente. Quando eu assistir, conto pra vocês o que achei da adaptação.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Literatura e família

Quando o release é ruim, eu venho e critico o assessor de imprensa. Mas quando é bem escrito e sobre um assunto interessante, me sinto na obrigação de publicar também.

Nesta quarta-feira (28), acontece na Biblioteca de Botafogo um debate sobre as relações entre literatura e família. Dentre os participantes, estão o escritor ganhador do prêmio Jabuti (o mais importante da nossa literatura) Cristovão Tezza, a escritora Heloisa Seixas e a crítica Cláudia Nina. Segundo a assessoria, a proposta é apresentar um quadro sobre a realidade das famílias que incorporam ao seu dia-a-dia o contato com os livros e a leitura, como uma forma de educar e aproximar.

Achei o tema bastante interessante, por que na minha família todo mundo tem um pouco de devorador de livros. A minha mãe que me deu a obra infantil completa de Monteiro Lobato quando eu era criança. Meus irmão viviam – e vivem até hoje – me dando livrinhos pra eu ler (hoje em dia eu posso tirar esse diminutivo, por motivos óbvios). Com meu pai eu lia a Turma da Mônica. E por aí vai.

Não sei se há uma relação direta entre o fato de eu ter passado boa parte da minha infância acompanhado de livros e o fato de hoje eu trabalhar com Comunicação e Literatura, mas certamente teve alguma influência. Então acho que vale a pena acompanhar um debate como este.

O evento começa às 19h30min e a entrada é gratuita. A biblioteca fica na Rua Farani, 53, em Botafogo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Militantes de Areia

Você entra no mestrado feliz da vida porque agora só vai estudar o que der na telha, só vai ler o que tiver a ver com seu projeto e por aí vai. Grande engano, porque em qualquer disciplina você vai ter que ler um texto daquele autor cafona que você detesta. E é sempre assim, não tem pra onde fugir.

Foi exatamente com esse receio que eu ingressei em uma disciplina sobre as relações entre a literatura francesa e a brasileira. Mas, apesar do cagaço, o que aconteceu foi justamente o contrário: acabei tendo contato com alguns autores que eu gostei mais do que eu previa. Pierre Rivas foi um deles.

Eu só li um livro dele: o Diálogos interculturais. E mesmo assim nem li todo – só os capítulos que a professora mandou. E achei bem bacana, principalmente o capítulo “Fortuna e infortúnio de Jorge Amado”, em que ele compara a recepção da obra do baiano no mercado e nos meios acadêmicos. Não vou entrar no mérito de como a academia recebe determinados autores – acho que já critiquei bastante a caretice dentro dos cânones literários numa entrevista que eu dei pro blog da Ucam. É que uma frase desse texto me despertou uma nova leitura do romance Capitães da Areia, do Jorjamado.

Rivas diz que no romance de Jorjamado, de uma forma geral, o povo não é uma categoria marxista, mas um “conceito écran”, ou seja, uma tela em branco onde um elemento externo pode projetar o que quiser ali. E é mais ou menos isso que se verifica no Capitães da Areia.

Para quem não leu, o livro conta a história de um grupo de meninos de rua em Salvador. Eles praticam pequenos crimes, conquistam mulheres, jogam capoeira. Mas é muito interessante a relação dos pequenos com a política.

Pedro Bala, líder dos Capitães, é filho de um grevista.  Parece que, mesmo sem ter consciência de qual seria sua vinculação ideológica, sabia que teria que entrar “na luta” – seja ela qual fosse.

- A bondade não basta.
- Só o ódio...
- Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta...

Estamos falando de menores de 15 anos de idade que nunca foram à escola. Mas são jovens que se revoltam diante da injustiça e da miséria em que vivem. Nunca haviam trabalhado, mas não se furtaram de participar do “espetáculo da greve” – greve esta que é classificada como “a festa dos pobres” por um estudante (leia-se: um camarada que não raro não trabalha, mas defende fervorosamente o direito dos trabalhadores). E, considerando que “a greve é a festa dos pobres” e “os pobre é tudo companheiro”, Pedro Bala e os Capitães entram no movimento grevista – mesmo sem saber com precisão o que significa tudo aquilo.

Dei essa volta toda para falar o seguinte: é mais ou menos assim que eu vejo o movimento estudantil hoje. Claro que há aqueles camaradas que pegam o jornal todo dia para saber o que está acontecendo, estuda a situação toda e tal. Mas, de uma forma geral, vejo uma meia dúzia de cabeças brilhantes comandando uma quantidade bem maior de teleguiados, que vão às passeatas, às manifestações, gritam palavras de ordem, repetem discursos mais ou menos fáceis sem saber explicar direitinho contra o quê estão protestando. Quase um conceito écran – os capas (como as lideranças são chamadas no movimento estudantil) projetam nos militantes de base (coitados...) o que querem e ali fica gravada aquela imagem.

Não estou defendendo que o movimento estudantil acabe, nem sou contra as organizações estudantis, como alguns podem pensar. Apenas gostaria que essa galera se questionasse mais e obedecesse menos.

Encerro esse post com uma frase do próprio Capitães da Areia que traduz, em algumas palavras, porque acredito que os estudantes ainda têm alguma força, mesmo com toda crítica que eu faço ao movimento estudantil:

 “Mas dentro do seu peito vem uma marca do amor à liberdade.”